Industria do diploma

Brave New World (Admirável mundo novo) de Aldous Huxley é um daqueles livros distópicos que mostra uma sociedade totalitária onde o ser humano é condicionado conforme o bel-prazer de uma casta que domina politicamente os demais e tratado como um animal coletivo tal qual pertecente a colônia de cupins, formigas ou abelhas. Todas as caracteristicas individuais e humanas são substituidas pelas normas ditadas pelos representantes da colônia.

Huxley sempre teve esse caráter distópico em suas obras, na obra The Human Situation (A Situação Humana, ensaios), temos um farto material sobre educação com essa visão literária que lhe é peculiar tornando fonte excelente para analogias com a situação atual. Huxley afirma:

"Como todos sabemos, aprender pouco é algo perigoso. Mas o excesso de aprendizado altamente especializado também é uma coisa perigosa, e por vezes pode ser ainda mais perigoso do que aprender só um pouco. Um dos principais problemas da educação superior agora é conciliar as exigências da muita aprendizagem, que é essencialmente uma aprendizagem especializada, com as exigências da pouca aprendizagem, que é a abordagem mais ampla, mas menos profunda, dos problemas humanos em geral."

Aldous Huxley estava preocupado com os rumos que os cursos superiores tomaram, criando cursos altamente especializados e esquecendo o compartilhamento que as áreas tinham entre si e a importancia que esse compartilhamento provocava sobre sua própria evolução. Uma preocupação válida mas inócua se tivessemos controle sobre o que aprendemos, porque a educação é algo pessoal, estimulada não só pelos fatores externos mas filtrada pelas aptidões.

Huxley estava antecipando o que o academicismo de sua época provocaria na educação por querer moldar o ser humano sob sua vontade.

Se observarmos como o MEC e a sociedade em geral considera ser a "boa educação", aquela onde o aluno é obrigado a cursar um determinado números de cadeiras e uma determinada grade curricular, podemos ligar essa citação com a situação atual. A universidade brasileira encara o aluno como um ser coletivo (ou um "Novo Homem" como queriam os nazistas), moldado sob sua vontade, onde suas aptidões seguem um ritual geral e suas características pessoais são irrelevantes. Temos uma educação superior que dita as normas necessárias sobre o que devemos ou não aprender.

Dentro desse cenário nunca teremos um DaVince (aquele que desenhava um circulo perfeito sem auxilio de ferramentas) ou sequer um Newton se não desobecerem a esse "Status Quo". Existe um academicismo imbecil que estigmatizaria um Faraday por ser autodidata e o consideraria inferior por não ter um diploma superior.

Um exemplo desse Ad Hominem institucionalizado é o caso do PhD em física pelo MIT que foi recusado na UFRJ porque não tinha o diploma de graduação.

Esse academicismo é o mesmo que tolera um analfabeto na presidência da república  (analfabeto por se orgulhar em ser iletrado) mas repudia quem não tem o curso superior.

Uma pergunta que deixo, tem sua resposta autocontida após a leitura desses livros: porque o número de abandono de cursos é alto e tantos trocam de curso no caminho?

Steve Jobs, em discurso durante formatura na universidade Stantford fala que nunca teria chegado aonde chegou se não tivesse largado a faculdade e continuado na universidade por mais 18 meses frequentando somente os cursos que o interessavam.

Voltando a Aldous Huxley ele afirma: 

(…) O que precisamos fazer é arranjar casamentos, ou melhor, trazer de volta ao seu estado original de casados os diversos departamentos do conhecimento e das emoções, que foram arbitrariamente separados e levados a viver em isolamento nas suas celas monásticas. Podemos parodiar a Bíblia e dizer: "Que o homem não separe o que a natureza juntou"; não permitamos que a arbitrária divisão académica em disciplinas rompa a teia densa da realidade, transformando-a em absurdo." 

Nesse trecho vamos a uma grande discussão: "Especialização Vs Generalização". Mas podemos ir além e propor porque um estudando deve obedecer a determinada diretriz sobre quais cadeiras ele deve cursar. Devo eu me especializar em determinado assunto ou adquirir uma formação mais ampla e genérica? Essa é uma pergunta onde a resposta somente o próprio estudante encontrará.

Mas cabe a alguém decidir que caminhos temos a seguir senão a nós mesmos?

Caráter Autoritário

O brasileiro se acostumou ao autoritarismo de tal modo que está entranhado ao seu  estilo de vida de forma imperceptível.

Em recente tópico numa lista de discussões voce pode observar como a reserva de mercado por meio de instituições como conselhos e afins é bem visto por uma parcela que se ortoga no direito de dizer quem pode ou não desempenhar determinada função por possuir um diploma.

Se um curso superior em sua essência não garante a reserva de mercado a seus estudantes em determinada área, necessitando de uma instituição a parte como um conselho, então temos um problema sério.

Intellectuals

Charlatanismo

Temos uma profusão de doutores aparelhando o ensino superior que mal durariam na selva do mercado senão pela mão amiga do estado.

Temos o Emir Sader (Emir Sádico) que escreve "Getulho" sendo formado em filosofia e atualmente dirige o Laboratório de Políticas Públicas na UERJ, onde é professor de sociologia, ironicamente um curso da área de humanas que teoricamente deveria ser exemplo de correção literária.

Marxista como Sader não é de se admirar que seja incoerência em pessoa, seu ídolo maior, Marx, foi o pai intelectual do charlatanismo. Karl Marx quando investigava os Blue Books ingleses atrás de dados que colaborassem com suas teorias descobriu que a situação dos trabalhadores ingleses tinha melhorado ao invês do que ele supôs, então disfarçadamente ele fez seus cálculos em dados de 30 anos antes daquele período. Essa história voce encontra na obra "Intellectuals" de Paul Jonhson.

Podemos ver em outras áreas como a exigência de certificados transformam o homem em um produto normatizado, em um artigo anterior eu falava sobre o desdém de algumas empresas sobre a experiência.

Salvação do mundo

Certa ocasião vi um depoimento de uma pessoa que alertava sobre o problema de analfabetos votarem, que somente aqueles que tem nível superior seriam capazes de discernimento sobre política e como escolher nossos representantes.

Vale ressaltar a quem pensa dessa forma que os maiores genocidas da história saíram da universidade, Pol Pot (elogiado por Sartre na Europa e por Noan Chomsky nos USA) antes de exterminar seus conterrâneos em tempo de paz foi formado na Sorbonne, Lenin teve a melhor educação que alguem poderia receber, Hitler fez parte do curso de artes da universidade de Viena. Enfim, nível superior não dá garantia de humanismo nem discernimento.

Alguns jornalistas (sic) propuseram a criação de um conselho para permitir que somente pessoas formadas no curso de jornalismo poderiam exercer a profissão, eles não conseguem entender que o mundo mudou, tão pouco admitem a idéia que a evolução do compartilhamento da informação desafia a guilda estabelecida.

O jornalista Janer Cristaldo até publicou um artigo bem interessante sobre o que é ser um jornalista. 

Meritocracia

Seria impossível um Amador Aguiar surgir hoje em dia e criar um Bradesco, primeiro porque ele sequer conseguiria uma vaga como contínuo por ter somente o primário completo. Não estou me referindo a empreendedores como o vice presidente da república que construio um império empresarial sem nível superior, mas àqueles que por determinação e aptidão são capazes da proeza de crescerem em uma profissão sem obrigatoriamente possuírem um curso superior. Exemplos seriam diversos.

Ou o Brasil acorda dessa cultura de imbecil-coletivo ou continuaremos ad infinitum com o Febeapá.

20 thoughts on “Industria do diploma”

  1. Excelente artigo. A Universidade perdeu, já há mais de um século, a sua razão de ser, que é uma produtora de conhecimentos e cultura, um Centro Cultural, para uma tentativa malfadada de “formar” (essa palavra já traz uma conotação não muito animadora, pois “formar”, “dar forma” ou ainda “moldar” recai exatamente no tema do seu ótimo artigo) para o “mercado profissional”, criando assim uma legião de seres não pensantes treinados para fazer tarefas exatamente da mesma forma que seus instrutores ensinaram. Pior ainda, muitos nem isso fazem.

  2. Mercados são mecanismos bastante tolerantes a falhas e têm sido usados com sucesso em várias situações para revelar informações bastante úteis. Eles podem ser muito bem usados nesse caso também. Uma pessoa pode conseguir enganar o mercado durante algum tempo, mas cedo ou tarde as ervas daninhas acabam sendo expulsas. Como diria nosso amiquinho jamaicano, Bob Marley:


    You can fool some people some time,
    But you can’t fool all the people all the time
    — Bob Marley, em “Get up, stand up”

    O problema dos diplomas e certificados é justamente esse. Para receber um desses, você não precisa ser digno do tal título, apenas parecer digno. Você só precisa enganar umas poucas pessoas durante algum tempo e depois que o obtém o restante da sociedade vai magicamente lhe considerar apto.

  3. Sei que já deve ter dado canseira de ver meu nome nos comentários, mas preciso me desculpar. Após bater no botão de envio, eu estava recebendo uma tela de erro e achei que houvesse algum problema com a marcação que usei no texto.

    De qualquer modo, pode apagar os dois comentários extras (e este aqui também).

  4. Milfont meus parabéns pelo artigo. Gostaria de ressaltar ainda um ponto histórico referente ao caso do Brasil em especial, que foi o momento da Ditadura Militar, pior prejuízo que uma nação pode ter. No Brasil em particular, acredito eu, foi a principal causa desse desastre educacional em que estamos vivenciando hoje, os governantes da época “sofreram” para deter os “subversivos estudantes e professores pensantes” das escolas e Universidades, embora as Universidades já tivessem essa estrutura curricular que você está criticando ela possuía também professores que realmente estimulavam o conhecimento e alunos que se empenhavam em adquirir esses conhecimento, a época antes da ditadura foi um época em que no Nordeste do Brasil, no Ceará para ser mais preciso se tinha uma escola pública de excelência, me refiro ao Liceu do Ceará, que embora não seja uma escola de ensino superior, nem por isso deixou de ter em seus bancos pessoas brilhantes e que se destacaram na sociedade. Somente a questão da MANIPULAÇÃO POPULAR, por parte dos governantes e a quem eles servem, justifica uma nação não valorizar suas mentes pensantes e brilhantes como maior exemplo cito PAULO FREIRE.

  5. A educaçao continuada e de qualidade eh a unica esperança de buracos como o Brasil.. os genios e os malucos sao imunes as restriçoes dos burocratas – conseguirao a façanha da criatividade ateh mesmo dentro de prisoes – mas ao homem comum soh resta a esperança de ser bem instruido enquanto ainda tiver tempo 🙂

    a abertura do nivel superior escanacrou o prejuizo da naçao em privar seus cidadaos do acesso ao estudo, mesmo assim conseguiu sugerir a universidade como algo plausivel e nao apenas sonhavel para os mal nascidos… se um dia o ensino for melhorado e as pessoas tiverem o privilegio da liberdade, o Brasil tem alguma chance..

    parabens aos que conseguem o diploma no Brasil, eles diminuem o abismo entre o mundo civilizado e a nossa pobre patria…

  6. Agradeço ao Shoes pela referencia na forma de Post em seu blog.

    Evandro, as universidades do “primeiro mundo” estão acordando para essa problemática (algumas a muito tempo já resolveram isso), mas paises subdesenvolvidos sofrem com a mentalidade paternalista de achar que alguem sabe o que é melhor para nós mesmos.

    Thiago, apaguei dois repetidos, sem problema!

    Ivan, não acho que sem o Golpe de 64 haveria alguma mudança no que vemos hoje, mas de qualquer forma uma ditadura é sempre um prejuízo! Eu por exemplo não sou comunista mas com certeza teria apanhado e considerado subversivo!

    Gaúcho, seus conselhos para eu subir ao norte são instigantes, mas sempre penso que poderia ajudar a propagar o libertarianismo por essas bandas mesmo relegando uma vida mais confortável, meu “isprito” subversivo se empolga por uma boa briga, veremos…

  7. Estranha interpretacao de “Admiravel mundo novo”. Em nenhum momento Huxley coloca castas _dominando_ castas, e sim administrando e convivendo de maneira simbiotica. Seria como em uma colmeia, e nao por “bel-prazer”. Sinceramente nem sei como chegar a uma conclusão dessas, ate os alfas tomavam soma para ficar felizes.

    Em relacao a pergunta “porque o número de abandono de cursos é alto e tantos trocam de curso no caminho?”, o indice é alto como desde o sempre. Como se na epoca de Newton fosse bem menor.

    E voce parece ignorar toda e qualquer tentativa que as universidades brasileiras fazem para melhorar esse academicismo que voce critica: como os cursos sediados em mais de um departamento (bioinformatica) e os cursos de ciencias (ciencias moleculares na usp, onde voce faz seu curriculo e estuda o que quiser).

  8. “Estranha interpretacao de “Admiravel mundo novo”. ”

    Estranho para mim é sua admiração, porque livros distópicos são “interpretados” dessa forma por todo mundo.

    “Em nenhum momento Huxley coloca castas _dominando_ castas, e sim administrando e convivendo de maneira simbiotica.”

    voce tem certeza dessa sua afirmação? Se leu o livro com essa visão me desculpe, mas não entendeu nada ou concorda em abolir toda a individualidade humana.

    ” Seria como em uma colmeia, e nao por “bel-prazer”.”

    Quer dizer que ter minha liberdade domada por uma elite governamental é tudo para o meu bem?

    ” Sinceramente nem sei como chegar a uma conclusão dessas, ate os alfas tomavam soma para ficar felizes.”

    Leu tambem 1984 de George Orwell? o que achou sobre ele?

    “Em relacao a pergunta “porque o número de abandono de cursos é alto e tantos trocam de curso no caminho?”, o indice é alto como desde o sempre. Como se na epoca de Newton fosse bem menor.”

    Os índices brasileiros de desistência nos últimos anos são os maiores de todos as pesquisas já feitas, em 2004 por exemplo foi maior que todos os anos anteriores juntos desde 1986. Então essa sua afirmação de que sempre foi alto o abandono de cursos está, digamos, desatualizada.
    Segundo os especialistas que já li, a desistência é alta hoje em dia porque a escola não consegue acompanhar a dinamica dos meios de comunicação e se torna mais efadonha do que já é.

    “E voce parece ignorar toda e qualquer tentativa que as universidades brasileiras fazem para melhorar esse academicismo que voce critica: como os cursos sediados em mais de um departamento (bioinformatica) e os cursos de ciencias (ciencias moleculares na usp, onde voce faz seu curriculo e estuda o que quiser). ”

    Não conheço esses cursos, inclusive voce observe que foi preciso montar outros cursos (especialização que Huxley tanto critica em suas obras) para oferecer essa flexibilidade porque em Ciência da Computação (um curso novo mas já tradicional) não é possível, o MEC determina a obrigatoriedade de determinadas matérias entre outras coisas rídiculas.
    Acredito que criar novos cursos para tentar flexibilizar o ensino é uma tentativa inócua porque estão criando uma gambiarra e não combatendo o problema principal.

  9. Entao nos de sua opiniao sobre como “combater o problema”. Como o exercicio da nossa profissao (ainda) nao é regulamentado, é um problema minimo, ja que voce pode estudar o que quiser! Qual seria a ideia, abolir qualquer obrigatoriedade do curriculo? Eu ate acho interessante, bastando ter um trabalho de formatura a ser defendido numa banca.

    Nao sei ainda se seu ponto é contra a regulamentacao da profissao, ou sobre o curso. O curso faz quem quer (no nosso caso).

    Li 1984 e a Revolucao dos bichos. Na obra de Huxley realmente, na minha interpretacao, a sociedade parece acabar com o individualismo.

  10. “Entao nos de sua opiniao sobre como “combater o problema”. Como o exercicio da nossa profissao (ainda) nao é regulamentado, é um problema minimo, ja que voce pode estudar o que quiser! Qual seria a ideia, abolir qualquer obrigatoriedade do curriculo? Eu ate acho interessante, bastando ter um trabalho de formatura a ser defendido numa banca.”

    Acho que ficou implícito no meu texto que defendo a liberdade, inclusive estamos lutando na faculdade para excluir algumas cadeiras e incluir outras mas o MEC não permite… ele decide o que é melhor para nós 🙂
    Para mim o perfeito seria voce escolher as cadeiras que prefere estudar contando que respeite a carga horaria mínima, eu por exemplo já conclui minha carga horaria na faculdade, mas sou obrigado a cumprir o cronograma que o MEC decidiu por mim.
    Não defendo a regulamentação da nossa profissão porque no Brasil regulamentação é sinônimo de controle e reserva de mercado para profissionais, é só observar o que acontece com a contabilidade e a engenharia (deixando os “mainstreams” direito e medicina por fora um pouco), na engenharia inclusive o caso é tão sério que um engenheiro não tem permissão de trabalhar em outro estado sem a autorização do conselho regional desse estado (pelo menos é assim aqui nos estados do NE que conheço), um absurdo.

    “Nao sei ainda se seu ponto é contra a regulamentacao da profissao, ou sobre o curso. O curso faz quem quer (no nosso caso).”

    Não necessariamente, o academicismo prefere títulos a competência, claro que existem exceções, a Caelum é uma :).

    “Li 1984 e a Revolucao dos bichos. Na obra de Huxley realmente, na minha interpretacao, a sociedade parece acabar com o individualismo. ”

    Parece não, acaba mesmo. Mas voce acha isso bom ou ruim?

  11. só uma nota. o “desfarçadamente” logo após a crítica ao erro cometido por Emir Sader foi no mínimo cômico. tão fáceis de notar são os erros do outros.

  12. Obrigado anônimo, vou fingir que nunca erro igual ao Olavo de Carvalho: deve ter sido distração do revisor!

  13. @Rodrigo Manhães, o que diabos o maluco do Olavo de Carvalho tem a ver com o POST? pelo fato de falar do marxismo bocó?
    Você é marxista?
    Porque cito o nome daquele miserável de forma irônica em comentário?
    Estou mais para Janer Cristaldo do que Olavo, aliás abomino o Olavo.

Comments are closed.