Enojado
Categories: Engenharia de software
-
Sem muito tempo para escrever, rabiscarei algumas considerações sobre a "Engenharia de Software" no ano da graça de 2007 que me deixam profundamente enojado.
Tivemos avanços significativos no modo como fazemos software nos últimos anos, deixamos de lado analogias com a construção civil e focamos nas características mutáveis do software para tentar entendê-lo. Tudo vai bem a não ser o temor que tenho de que os abutres do charlatanismo virão agora atrás da carne fresca, não deixarão sequer o animal morrer para estraçalhá-lo.
Hoje mesmo comentei nesse post do Rafael Carneiro sobre o problema estar nas pessoas por não entenderem a metodologia do que propriamente na metodologia. Comentei que daqui a pouco essas empresas todas correrão atrás dos métodos ágeis para enfeitarem seus portfolios e não serão nada ágeis, assim como não sabem aplicar o RUP. O problema não está na metodologia, eu me enganei quando pensei que o RUP que era errado, as pessoas é que não entendem como usar.
Pois bem, colaram no meu gtalk o link de uma discussão no GUJ sobre uma matéria da revista EXAME com o título "Fábricas de informação". Eu li a discussão sobre trechos da reportagem após o almoço, ou seja, vomitei a parte mais gostosa da feijoada, toda aquela gordurinha dos nossos amigos suínos que não havia sido digerida ainda. Não que o problema seja da revista ou do autor da matéria, pelo contrário, a matéria não se inclui na categoria de não ser especializada porque as maiores empresas de consultoria (como TCS, EDS, BRQ, IBM, Accenture, Stefanini) colaboraram com a reportagem e concordam 100% como tudo que foi escrito.
Essas empresas daqui a aproximadamente 12 meses estarão contratando profissionais especializados em metodologias ágeis que possuam certificação Scrum e afirmarão que apenas os possuidores de CMMi nível 5 serão capazes de desenvolverem softwares adaptáveis. Um mercado editorial se alargará com obras como "Seja ágil em 24hrs" e "Como se tornar um ScrumMaster". O ciclo recomeça, e tome palestras organizadas pela VOCE S/A para explicar aos acionistas o que os CIOs querem fazer com aquele aumento de 2% no orçamento trimestral, isso tudo aliado a buzzwords lindas e emotivas que fazem a gente se orgulhar de ter um diploma de Bacharel em Ciência da Computação na sala da avó materna.
Como hoje meditei, fiz Yoga, acendi um incenso e tomei um chazinho, não vou me alongar nesse assunto.
Fiquem com um pouco de sabedoria chinesa que escreveram na revista, daquelas de 1,99:
"A produção é organizada como numa linha de montagem. É comum que estes profissionais nem saibam exatamente para que serve o software que estão criando."
Já que gostam tanto de analogia, imagina agora um padeiro recebendo parte da receita e tentanto imaginar o que está "programando", será que é assim que funciona uma padaria? Essas empresas nem para budega servem, mas tem CMMi5.



July 30th, 2007 at 11:13 am
Excelente post novamente.. essas empresas sacanas(ou profissionais que não se valorizam?) :~
July 30th, 2007 at 11:31 am
Para quem não conseguiu ler a matéria, o oráculo tem um link cacheado
http://64.233.169.104/search?q=cache:YJfGInijPmQJ:portalexame.abril.com.br/revista/exame/edicoes/0896/tecnologia/m0132291.html “fabricas de informação”&hl=pt-BR&ct=clnk&cd=1&gl=br
July 30th, 2007 at 11:45 am
muito bom!!
“Excelente post novamente.. essas empresas sacanas(ou profissionais que não se valorizam?) :~”
ponteS acho q os dois..
July 30th, 2007 at 11:55 am
Muito bom o post.
Como iniciar o processo de valorização do profissional uma vez que sempre haverá aquele que, por necessidade financeira ou outro motivo qualquer, se permitirá desvalorizar?
July 30th, 2007 at 12:08 pm
Eu não sou ninguém para dizer que empresas como IBM e Stefanini (e outras citadas no artigo) erraram em apoiar uma pesquisa dessa. A única coisa que concordo com o artigo da EXAME é que a indústria de software está crescendo muito aqui no Brasil, mas em relação ao termo “A produção de software cresce no país e assume o papel das tradicionais linhas de montagem”, achei que não deveriam ter pensando nessa linha. Um programador não é um robô que recebe um caso de uso de um analista (ele também não seria um profissional de linha de montagem?) e começa a digitar linhas e mais linhas de códigos sem pensar, muito pelo contrário, ele pensa e muito. Nós temos que rever nossos conceitos em relação a esse assunto e irmos atrás da nossa dignidade.
July 30th, 2007 at 12:09 pm
O problema pessoal não está nem nas empresas que fazem isso (charlatões), nem no pessoal que se sujeita (mão-de-obra despreparada). O problema está em nós profissionais que permitimos os charlatões saírem por aí se dizendo médicos e passando placebo ou curandeirismo (para brincar de fazer analogia novamente).
O problema é que as comunidades de programadores e entusiastas devem se manifestar e combater, nunca deixar um lado somente falar.
Mas não defendo guildas modernas como sindicatos ou conselhos, enfrentar o debate saudável e mostrando o outro lado é o único caminho, o empresário real não se ilude com o bonito, isso fica para budegueiro.
July 30th, 2007 at 1:05 pm
Caro Milfont, achei que seu tópico foi excelente, mas um coisa você tem que ver muitas empresas não prezam a qualidade mas a quantidade. E quantidade é o lucro no final do mês. Acho quem fez esse artigo ai da revista exame, seja talvez um empresário que nunca foi um programador e nem se quer um gerente de projeto de qualidade, pois o rup serve para facilitar o processo de criação de software dando uma maior capacidade aos desenvolvedores de detectarem falha e utilizarem dessa metodologia para correção de erros. Algumas empresas de grande porte pelo que vi , não implementam o rup 100% de como ele deve ser desenvolvido. Pode ser ai que esteja o problema ou as pessoas que estão na cadeia dele visam apenas o lucro. Em relação ao que você fala dos programadores serem comprados é porque muitas vezes não exista empresas no nosso estado com carta na manga para podermos dar-se-a o valor que nos merecemos receber. Acho que essa questão não é tão simples de ser resolvida e muito menos discutida, pois na maioria das vezes não teremos chegado ao lugar comum.
July 31st, 2007 at 7:15 am
A matéria foi interessante, porém discordo quando dizem que a culpa é das empresas.
O cliente não tem sempre razão? Pois bem, nesse caso a culpa também é do cliente.
O modelo fábrica de software é comprado e exigido pelo cliente.
As empresas adorariam ganhar mais dinheiro com consultoria do que com fábrica de software, porém o cliente exige o modelo fábrica para reduzir custos e as empresas de informática vendem porque é o que eles querem comprar.
Quem for esperto (e bom!) que fuja das fábricas de software e tente buscar projetos interessantes para trabalhar.
Outro ponto, é que a maior parte das empresas citadas não vive exclusivamente de fábrica de software (felizmente) e também tem outros projetos interessantes.
Portanto, cuidado com as generalizações, pois podem influenciar os mais novos que não conhecem o mercado.
Sem mais,
August 7th, 2007 at 12:47 pm
A idéia de comparar uma empresa de software com um fábrica é poder apropriar a qualidade via processo e aumentar o lucro pagando menos para os desenvolvedores. Mais sobre o assunto em http://zensistemas.blogspot.com/2007/07/cmmi-e-apropriao-dos-meios-de-produo.html
August 8th, 2007 at 11:10 am
Eu tive uma reação tão ruim quanto a sua, quando li este artigo. E também o comentei no meu blog:
http://www.eduardomiranda.net/blogs/dotnet/archive/2007/07/10/remando-contra-a-mare.aspx
Concordo com o Gatti até certo ponto. Acredito que os clientes têm parte da culpa. Principalmente por usarem custo como o único fator de comparação. Para eles certificação e custo são as variáveis em questão.
Ai é que eu acho que eles podem estar sendo “enganados”, ou talvez deixando-se enganar. Os vendedores apresentam suas certificações como garantia de qualidade, os cliente compram isto. Mas vamos pensar no CMMI, por exemplo, ele “garante” que o processo é repetível e mais previsível. Isto garante produto final de melhor qualidade? Garante melhor custo/benefício? Também não.
December 3rd, 2007 at 4:28 pm
[…] Há uns dois bons anos, conversando com 2 amigos, resolvemos criar uma empresa de software para competir no mercado local devido as nossas frustrações desse modelo de fábrica de software, deixamos essa idéia em banho-maria por um tempo e depois resolvemos reativá-la, discutimos sobre como seria o nome realmente (desculpe pessoal, mas já está público mesmo e ninguem sabe como esconder o passado sujo) e como eu sempre fui fan doente do Martin Fowler, criei o nome Triadworks (notaram alguma semelhança?). Por sermos 3 e por lembrar sempre meu ídolo. […]
May 27th, 2008 at 5:21 am
[…] escrevi muito sobre isso em posts passados. O Vinícius da ImproveIt escreveu sobre o assunto […]