Sem tempo suficiente

{ June 29th, 2010 }


cmilfont

Autor: cmilfont

Recentemente, em um determinado projeto, tínhamos uma semana para disponibilizar uma versão e uma timeline definida por motivos externos que não poderíamos furar. O problema era que toda modificação gerava ainda mais medo por conta da baixa cobertura de testes, praticamente estavam codificando e corrigindo nessa altura do campeonato.

Eu radicalmente sugeri um grande refactoring para corrigir nossa bateria de testes, uma parada faltando apenas uma semana para entrega, mas só assim voltaríamos a trabalhar na entrega das features.

Nesse momento, o clássico “Não temos tempo para isso” surgiu das profundezas do inferno.

Fiquei sozinho nessa decisão, o time inteiro foi contra. Na defesa da solução apresentada eu falei: “Vocês podem se enganar imaginando que podem entregar essa release em uma semana com a qualidade do código existente que vocês sabem que vai de mal a pior ou podem trabalhar para corrigir esses problemas e entregar o possível, mas funcionando”.

Sabemos da importância de testes, todas as metodologias os cobra obrigatoriamente, então se você não testa, você está errado em todas as metodologias. O problema sempre é a desculpa da timeline e quanto mais vai se aproximando mais desculpas procuramos encontrar para esconder as deficiências. Como nesse caso não tínhamos Test First, os problemas vão se empilhando no final e se tornam mais difíceis de serem detectados.

Por sorte, minha sugestão acabou sendo acatada, apesar de ser apenas um consultor no projeto, portanto uma galinha e não porco.

De onde nascem essas desculpas?

Coragem é um dos valores do XP, é importante enfrentarmos esse tipo de situação que descrevi, na vida real isso quase nunca é possível porque essas arquiteturas flácidas ou códigos mal cheirosos não nascem do dia para o outro e vão se acumulando.

O projeto que descrevi era um projeto novo, tecnologias fresquinhas e um time modernoso. Imagina agora se você está em uma corporação que usa um processo cascata, todo amarrado, criando documentos UML desnecessários no EA, struts 1 como framework, CVS como controle de versão do código [quando há! Sim, em pleno 2010 ainda há quem não use nenhum], o código de banco de dados cheio de procedures e tantas modernidades da década de 80.

Então, acha que só coragem basta?

Em muitas oportunidades o custo de mudanças ou simplesmente “fazer o que se tem que fazer” não se pagará nem a médio prazo, nessas horas convencer já não basta. É muito difícil você convencer a alta direção que deve jogar fora um determinado projeto e começar do zero, ou modificar toda a infraestrutura existente.

A degradação de um software nasce de pequenos problemas que se acumulam, no final há tanto para se fazer que ninguém mais tem coragem para isso.

Socorro, Milfont!

Recebo constantemente pedido de socorro de pessoas que me conhecem das comunidades que participo como XPCE, GURU-CE, JAVA-CE, entre outras. Geralmente são funcionários que se encontram nessa situação que citei anteriormente, com projetos muito defasados e problemáticos.  O pedido é sempre o mesmo, querem que eu vá lá dizer para a alta direção o que eles [funcionários] já sabem. Só que isso não basta, o movimento tem que começar por lá.

Em reunião com a turma da TriadWorks, temos discutido isso já há muito tempo e acabamos preparando um serviço de resgate aos clientes para contornar esse problema. A proposta é envolver as pessoas desses clientes, dar coragem e ânimo nelas para começarem a resolver o problema.

Resolvemos começar com nossos próprios clientes, sim, dá preferência a quem tem contrato conosco e depois verificar como abrir para a comunidade.

Então, esse envolvimento nós demos o codinome de “AvoidNotEnoughTime” e consiste basicamente em um conjunto de ações/eventos  com os funcionários dessas empresas para dar essa força necessária para anular o NotEnoughTime na base. É um movimento de baixo pra cima, roots, serão desde Coding Dojos, Code Retreat, Code Jam, Hack Days, Lightning Talks, Open Space ou um formato adequado a um determinado problema que identificarmos.

Nós não vamos cobrar a mais dos clientes por isso, aliás, eles nem foram avisados e não terão controle sobre o projeto, nós que decidimos quando, como e com quem faremos justamente para evitar sabotagem ou direcionamento.

Sem planejamento nem nada, resolvemos iniciar mesmo assim, domingo passado [27/06/2010] realizamos um Git Session onde eu [@cmilfont], @triadworks representada por @handersonbf, @rponte e @carlosatilabreu, recebemos funcionários de clientes nossos. @jeffersongirao da TubForm, @rodrigogalba da Casa Magalhães e @rodrigodealer da Fortes Informática.

O que vocês ganham com isso?

Resolvemos fazer um Git Hack Session devido alguns de nossos clientes usarem CVS e SVN. O tempo perdido resolvendo problemas de repositório como merges e bobagens simples causam um prejuízo enorme, as desculpas para mudarem cai sempre no “não temos suficiente” ou “depois fazemos quando terminar esse projeto”.

Então cada ponto de dificuldade que um time enfrenta e observarmos que se repete nos demais clientes, vamos organizar ações para envolver essa turma afim de anular essas desculpas. Treinar multiplicadores em todos os princípios.

No caso do Jefferson Girão, que trabalha também para a Hoodiny, veio mais para nos auxiliar, já que está mestre no uso do git no meu cliente Tubform [uma das maiores indústrias do Nordeste].

Dessa forma nosso trabalho de consultoria será facilitado e no mínimo já faríamos esses eventos internamente, então unimos o útil ao agradável.

Se você gostaria de participar de algum desses eventos mesmo não sendo funcionário de cliente nosso, mande um email para mim [cmilfont@gmail.com] e tentaremos incluir sempre quando puder. Domingo agora surgiu um desfalque, até twittei convocando alguém que estivesse disponível, mas foi em cima da hora.

Começou #gitsession on Twitpic

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Na teoria, é você quem não conhece a prática

{ September 18th, 2009 }


cmilfont

Autor: cmilfont

O Dr Alan Kelon [ou quase dr., não sei se já terminou] com a arrogância clássica da academia deu uma aula de engenharia de software a esse pobre AMADOR SEM EDUCAÇÃO que vos escreve.

Se eu fosse um novato, recém integrado na faculdade, sem base acadêmica para duvidar de um Dr. [ou quase] eu estaria destruído com minha ignorância.

Esse é o temor que tenho da academia, a sua falta total de pé-no-chão ou conhecimento real daquilo que ensina, é o que me fez abandoná-la e nunca mais pisar por lá.

Tantas citações a obras importantes é típico da academia, mas o discurso que eu gostaria de ouvir não existe:

“Quando eu implantei CMMi na XPTO…”

“Quando eu trabalhava com RUP, nós…”

Alan Kelon

Na prática a teoria é outra

Caro Dr., eu estudei muito sobre isso, li todos esses documentos e até cheguei já a acreditar que eram válidos para garantir a qualidade de um produto. Claro, isso no início desse século quando eu era estagiário e sem conhecimento real.

Depois de passar por implantação de CMMi mais de uma vez, ISO e Mps.Br, foi que aprendi o valor da teoria e como aquilo que está escrito não reflete a realidade na “engenharia de software”.

Talvez o que mais me marcou em verificar que não existe engenharia de software [ou ela é ainda muito incipiente] foi ter participado de avaliações ISO em outros setores como indústria, imobiliária e serviços. Fica evidente para todo mundo que a avaliação nesses setores é de processo e não de produto e serviço porque eles tem métricas reais e aplicáveis em suas industrias.

Quando CMMi ou ISO falam em qualidade de produto eles não dizem como fazer e sim o que fazer, essa é a diferença básica entre processo e produto, caro Dr.

Essa bobagem semântica  faz toda a diferença, quando eu avalio a qualidade de um produto como uma garrafa PET, existem métricas reais para testar a qualidade [como por exemplo durabilidade], existe um processo normatizado por órgãos [como ANATEL, ANVISA, e tantos outros] que garantem a qualidade mínima do produto ou serviço.

Esse foi o seu primeiro erro conceitual, dizer que tem que fazer é diferente de dizer “como” tem que fazer. “O que” é processo, DR. “Como” é produto, Dr.

Testes de Software

Vou fazer um mea-culpa porque quando escrevo eu sempre esqueço que meus leitores não me conhecem e não podem advinhar o que fica nas entrelinhas, eu não gosto de citar referências por preguiça de sair catalogando nomes de livros e autores [só quando lembro na integra de cabeça e acho importantissimo] e espero que as pessoas não acreditem em uma só linha sem verificar. Como vão verificar, eles acham a referência por si só, não preciso colocar bibliografia nos meus textos.

Esse trecho fica evidente que falho por omissão:

Há controvérsias sobre testes automáticos garantirem qualidade interna, na verdade, não vejo onde há relação direta. Testes são sim de suma importância, independentemente de serem automatizados ou não, que fique claro, mas não garantem totalmente a qualidade, nem externa e muito menos interna (em breve explicarei o porquê), muito menos é o único método para se conseguir qualidade. Inspeções e revisão de software (e especificações associadas), juntamente com analisadores estáticos, são tão efetivos quanto testes na detecção de defeitos e tem possibilidade maior de melhorar a qualidade interna de produtos de software.

Quando falo em testes, é óbvio para quem me conhece que estou me referindo sobretudo a TDD e também BDD. Testes por si só não garantem nada, nem sequer que as falhas estão cobertas.

O processo de TDD é que fortalece a qualidade interna do software porque ao você aplicar as práticas desse processo, você se torna minucioso na verificação de coesão, complexidade, acoplamento sem precisar de ferramentas de análise de código.

Eu não estou afirmando que não use ferramentas de análise de código, longe disso, só que essas ferramentas não verificam qualidade real no código, no máximo elas avaliam erros clássicos e mau cheiro no código. É perfeitamente possível escrever um código horroroso e ilegível e passar por todas as ferramentas de análise de código facilmente, isso acontece na prática no cotidiano.

Como testar?

Antes de me dizer, responda-me: Você faz que tipo de teste? Unitário, integração, sistema, aceitação? Testes funcionais, estruturais ou baseados em defeitos? Para testes funcionais, você utiliza classes de equivalência, análise de valor limite, grafo causa-efeito e ainda tenta error-guessing? Para testes estruturais, você aplica grafos de fluxo de controle? Como define seu critério de cobertura de instruções, decisões, condições e caminhos? E quais das métricas já citadas ou quaisquer outras tem adotado? (Zhu, Hall and May, 1997) Se você não tiver uma boa estratégia para cada uma destas táticas, sinto muito informar-lhe, mas VOCÊ NÃO SABE TESTAR SOFTWARE.

Eu não sigo as estratégias do Zhu “Who?”, eu sigo um AMADOR SEM EDUCAÇÃO chamado Kent Beck que não é nada científico mas funciona. Sim, eu faço testes unitários, integração, aceitação, stress, carga e o que der mais para fazer com o tempo disponível para entregar o software o mais saudável possível. As ferramentas de análise de cobertura são frágeis e deixam escapar a real cobertura, da qual temos que aplicar triangulação e outras práticas não-acadêmicas criadas por AMADORES SEM EDUCAÇÃO.

O bacana de tudo são esses números:

Ou seja, mesmo que você tenha 100% de cobertura, você terá apenas garantia de detecção de defeitos em 25% dos casos (Glass, 2002).

Minha vó dizia que os números quebrados tem mais credibilidade, se fosse pelo menos um 25, 37%… vá lá.

Não estou a par de nenhum estudo rigoroso que mostre relação positiva entre presença de testes automáticos e código mais coeso, desacoplado, limpo, claro e legível também.

Dr. o mundo não vive de Papers apenas, saia da academia e visite uma empresa que faça TDD e outra que não, o senhor avaliará por si só. Alias, quem deveria fazer esses estudos era a academia, não? Como farão se não saem às ruas?

Caso alguém tenha, por favor, entre em contato. Gostaria de saber também, se possível, quais processos preocupam-se com qualidade externa em detrimento de qualidade interna. Seriam os processos ágeis?

Todos os processos avaliam qualidade externa pelo que escrevi acima.

O seguinte trecho quase me faz não responder esse artigo:

Por fim, o PROJETO é a quarto e última variável necessária para construir software, porque planejamento e gerenciamento são nossas únicas armas para controlar a complexidade

O que diabos complexidade tem a ver com planejamento e gerenciamento?

Desde quando voce planeja a complexidade de um software?

Fazendo notação matemática do algoritmo?

Desculpe, mas nem todo mundo tem o tempo do Dr. Knuth para entregar software, precisamos de verificação rápida e não notação matemática e não existe um mecanismo que faça isso antes de ter um software escrito.

Novamente, o projeto pode ser tão detalhado e formal quanto se queira.

Não, DR. O projeto não pode ser tão detalhado e formal quanto o queira, isso eu acreditava antes de fazer coisas reais e ficava apenas em cima de livros, se a engenharia de software realmente existisse, eu tinha mecanismos reais para fazer esse detalhamento, mas hoje esses mecanismos reais não existem.

Cada vez mais me convenço de que a academia está morta e não produz nada de real, apenas papers repetitivos de bobagens que ninguem lê.

Deveriam ter terminado a notação formal da orientação a objetos mas estão preocupados demais com “modelos de qualidade” [sic] que nunca avaliaram na prática e não fazem idéia de como mensurar.

Isso não é científico, Dr.

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Qualidade Interna vs Qualidade Externa

{ September 17th, 2009 }


cmilfont

Autor: cmilfont

Processos de desenvolvimento de software são quase todos iguais em termos de práticas e todos podem assumir práticas novas de outros processos, até cascata pode aplicar qualquer prática de XP e Scrum em seu modelo naturalmente.

O que diferencia esses processos não são as práticas, são os valores. O problema é que entender, compreender e adotar valores é algo subjetivo que varia de pessoa para pessoa por mais que se tenha princípios bem definidos que conectem as práticas a esses valores.

Diante disso, nenhum processo garante que seu projeto será um sucesso por estar o seguindo, mesmo que seja “By The Book”.

Há uma preocupação com o chamado Scrumbut, mas eu já vejo e vi projetos Scrum que não são Scrumbut e mesmo assim o software produzido, por mais ágil que seja, não tem qualidade e no primeiro refactoring você já entra no prejuízo similar a um software desenvolvido em Cascata.

Fato é que esses valores e princípios não garantem software com código coeso, desacoplado, limpo, claro e facilmente lido, ou seja, com qualidade interna.

Hoje minha preocupação em todos os projetos é a qualidade interna do software, não importa que metodologia seja adotada. Qualidade interna garante que o software tem boa saúde e é fácil de ser medida.

Saúde do software é o quão rápido e efetivo ele se recupera de mudanças e o quão limpo ele está de defeitos. Para se recuperar de mudanças o software precisa ser limpo e claro, ser facilmente entendível e lido.

Livre de defeitos é ter uma cobertura de testes que explorem e machuquem o código até descobrir falhas que passam despercebidas.

A grande maioria dos processos se preocupa mais com a qualidade externa do que a interna. Não importa se você faz reuniões em pé, tenha o cliente presente ou faça Scrumban ou até mesmo que você esteja entregando software rápido, nada disso vai garantir qualidade e que não vá ter prejuízo no futuro.

Vender qualidade externa tem um apelo comercial fácil porque você não precisa comprovar a qualidade do software e sim do processo, o discurso é sempre mais elegante do que falar em código, principalmente para alta gerência e burocratas, tanto é que todos os modelos de qualidade reconhecidos avaliam o processo e não o produto.

CMMi, ISO ou seja lá que for, não garantem que o produto será de qualidade e sim que o processo seja e se pararmos para pensar um momento, o processo realmente é de qualidade, temos um conjunto de métodos eficazes para produzir… processo e não produto.

Um exemplo de qualidade interna de um software são os testes automáticos em suas diversas nuances como unitários, aceitação, integração e funcional, mas não apenas isso, métricas de coesão, cobertura, LOC, complexidade e tantas outras.

No Maré de Agilidade eu fiz questão de enfatizar:

“Não importa que processo você siga, se é ágil ou não, se você não faz testes de Software vocês está errado em todos.”

Não existe um software sem bateria de testes automáticos com qualidade, isso é lenda. Em mais de 10 anos de profissão o que tenho notado é que a grande maioria, senão todos, são fortemente acoplados e de baixa coesão como consequência da falta de testes. Aplicar testes nesses softwares é uma tarefa quase impossível e proibitiva em relação a custos, sai mais barato fazer um software novo.

Outra coisa que falei no Maré de Agilidade foi:

“Não seja ágil, seja o melhor possível, porque ao procurar ser o melhor você invariavelmente vai se deparar com práticas que o tornam melhor e aí você se tornará ágil”.

Assim como o lema da Rossi: “Armas não matam pessoas, pessoas matam pessoas” podemos induzir que: Processos não desenvolvem software, pessoas desenvolvem software!

Ao trabalhar com pessoas, precisamos entender que modelos de negócios como software são de terceira onda [Alvin Toffler aqui] e não da segunda onda [industrialismo]. Qualquer analogia com modelos de segunda onda provocará insuficiência no trabalho dessas pessoas [por isso Lean faz tanto sucesso hoje] e elas precisam estarem motivadas para produzir qualidade interna, coisa que o trabalho sobre qualidade externa não produz.

Esse tema sobre pessoas e processos [como homem/hora] será escrito em outro artigo.

Resumo desse artigo é: Pessoas são responsáveis por produzirem qualidade interna ao produto e não processo, invista nelas.

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