Gerentes de projetos não são técnicos

Há uma grande confusão sobre o papel correto de um gerente de projetos, eu mesmo até pouco tempo exigia dos gerentes um papel diferente da sua real função dentro de uma empresa de desenvolvimento de softwares.

Teoricamente o PMI não criou uma metodologia para gerência de projetos de desenvolvimento de softwares, criou algo mais abstrato, que teoricamente deveria ser apropriado para quaisquer projetos. A cultura PMBOK aliado a cultura CMMi pode produzir algo profundamente pior se exigida como “metodologia para gerencia de projetos de software”.

Em discussão recente nas listas de discussões eu respondi o seguinte:

from CMilfont
to pbjug@googlegroups.com
date Wed, Sep 24, 2008 at 3:49 PM
subject Re: [PBJUG] Re: [MEIO-OT] – Referencia de leitura do mês sobre nossa realidade no NE
mailed-by gmail.com

hide details 3:49 PM (20 hours ago)

Reply

Um gerente de projeto não tem nada a ver com desenvolvimento de software. O papel dele no time é de observador. lado a lado com o cliente.
O papel de um gerente em um processo de desenvolvimento cabe a grosso modo acompanhar e providenciar ações para minimizar os riscos passados pelo líder técnico da equipe.
Como: providenciar mais recursos financeiros, contratar mais pessoas, gerenciar tempo do projeto, e principalmente cuidar para que o café não esteja mais ou menos frio, que é o que mais impacta no bom desenvolvimento de software.
Se é para ter um script, uma boa empresa deveria distribuir seus cargos onde o lider e os desenvolvedores devem ser os mais bem pagos, seguidos do gerente e do sobrinho do dono, acabar com cargos de programador e analista.
Em primeiro lugar na folha de pagamento a copeira que faz o capuccino perfeito e o boy que compra aquela coxinha + coca de 600 do outro lado da rua.

Sobre a brincadeira da coxinha, o que quero dizer é que dinheiro e evolução na carreira não passa em se tornar um gerente de projetos, papéis em uma equipe tem a ver com “skills” diferentes, não com salário ou evolução. Um líder técnico pode ganhar mais que um gerente de projetos.

Limitando-me apenas ao contexto desse post, o papel do gerente tem que ser o mais abstrato possível, sei que a realidade é diferente no nosso mercado, mas essa história de que o caminho natural de um bom desenvolvedor é evoluir para um gerente é errado.

Não necessariamente o gerente é o técnico mais experiente, são papéis distintos na equipe, ele não vai se preocupar com aspectos técnicos. Até a métrica não é feita por ele, a equipe que especifica, mas controlada e acompanhada. Com base nisso um gerente pode ser tranquilamente um não-técnico naquilo que gerencia desde que não assuma responsabilidades que interfiram no processo de desenvolvimento do software.

Claro que em ambientes burrocráticos onde o gerente não lide com auto-gerenciamento ou não saiba como trabalhar adequadamente, acaba involuntariamente em um processo monolítico e prolixo que por mais que se tenha boa vontade, nada de substancial consiga ser produzido.

Tive uma experiência traumática quando fui coordenador de projetos de uma “fábrica de software”, assumi o papel de coordenador/gerente quando na verdade era um líder técnico, todos os projetos evidentemente fracassaram, porque os projetos que conseguimos entregar foram projetos fora do prazo.

Riscos como falta de pessoal, recursos financeiros e de equipamentos foram orçados e medidos de forma errada porque estava assumindo skills técnicos como programar e arquiteturar em todos os projetos envolvidos, acabei não realizando uma coisa nem outra. Cheguei ao ponto de me auto-alocar no cliente desenvolvendo porque assumi os riscos de forma inapropriada.

Não assumo todos os deméritos pelo fracasso, mas com a experiência que tenho hoje eu deveria saber que ser gerente assumindo funções técnicas é prejudicial para a equipe.

Hoje não quero ser gerente de projetos, sou programador, gosto de ser técnico, sou mais feliz assim. Poderia ser um gerente de projetos hoje? Poderia e tenho mais experiência de quando eu fui, mas não quero.

Cada um tem que assumir os papéis dos quais tem melhor aptidão. Não necessariamente ganhar melhor.

Fazer o que sabe melhor e o que gosta é o caminho mais natural para ser feliz ou no mínimo não ferrar com a vida dos outros.

12 thoughts on “Gerentes de projetos não são técnicos

  1. Handerson Frota

    Tem gente que realmente acha que existe a escadinha…estagiário, programador, analista, líder, coordenador e gerente.
    Na minha visão isso não faz muito sentido.

    Se eu virei gerente eu não evolui, apenas mudei de ramo técnicamente falando.

    Não quero parar de programar, e não tenho vontade de trocar meu eclipse pelo word, com certeza não me vejo fazendo isso.
    Já assumi cargos de líder e “meio gerente” é diferente, agora assimir totalmente ai realmente não é o meu skill como disse vc.

    Sou desenvolvedor, e quero morrer assim 😛

    Abraços

  2. Rafael Ponte

    A idéia errônea sobre o papel de um gerente de projetos é comum mesmo, assim como você eu já associei diversas vezes papéis ou “skills” aos meus gerente de projetos, entre eles achar que o gerente deveria ter uma boa experiência no aspecto técnico.

    Agora algo que vejo muito dos profissionais (e pseudo-profissionais) na área de TI do nosso mercado é achar que ser gerente de projetos é “subir de cargo”, será que não está claro que gerência de projetos é outra profissão?

    E claro, o mais importante, o gerente de projetos deve manter sempre o café quentinho 🙂 rs

    Parabéns pelo post, muito esclarecedor.

  3. Gustavo F. Carvalho

    Gostei!! Lendo agora, na íntegra, tá melhor que no email da lista. Dessa forma vc conseguiu me convencer em alguns pontos. Parabéns pelo post e pelo site (não conhecia!!).

  4. Andrei Formiga

    Concordo totalmente com seu post, era mais ou menos o que eu queria dizer (na discussão original): que devem existir caminhos de carreira diferente, para habilidades e interesses diferentes. Mas eu tenho a impressão que aqui no Brasil a cultura é que para subir na carreira é preciso ser chefe, então o programador é visto como peão. E foi assim que eu entendi a reclamação do post que eu indiquei aqui.

  5. Rafael mendes

    Concordo plenamente com o autor, pois cada pessoa nasce para desenvolver uma função. Se algum dia essa pessoa necessite de mais grana, status e pensa em mudar de programador para gerente tem 2 opções, ou ele não sabe programar direito(POG) ou ele deve estar na area errada(quem sabe corte e costura? ). Posso até ser um pouco radical, mas quero ser programador, gosto de programar, eu vibro quando consigo arrumar ou criar algo, é massa, é bom !
    Mas uma coisa eu tenho em mente, quando eu estiver mais velho quero cer um CTO, trocar o “eclipse por o word” porque lá, mas lá quando eu tiver “vei…” eu quero só uma vida mais orientada a decisões que eu acredito ser mais simples (eu já serei um bocado experiente !).
    Digo para quem está indeciso, seja feliz! escolha algo que lhe agrade, ganhe pouco mas seja bom que eu acredito que um dia serás visto como o “BOM” e logo em seguida sucesso e dinheiro vem de bolo.

  6. Mário Aragão

    “Se eu for gerente, capuccinos de primeira e cocas Geladissímas.

    Obrigado Fortaleza!”

    É isso Milfont, há essa idéia do upgrade na carreira assumindo uma gerência de projetos, sem falar da moda dos certificados PMI que rolam desde 2000 e pouco, mas é como foi falado, são cargos e funções diferentes, não que não possa ser exercida por alguém técnico mas que seja assumida como não-técnica.

  7. Eduardo Ottaviani

    Concordo em gênero, número e grau. Sou da mesma opinião, programar é uma arte, é um hobby. No meu ponto de vista, ganho para me divertir, como se ganhasse para jogar bola.

    Mas tem algumas coisas que me deixam um pouco chateado, que é o pouco valor que se dá para programadores, não estou falando só em termos de remuneração. Somos mais lembrados quando surgem problemas.

    Também a má gerência, que atrasa projetos e chega em nossas mãos pegando fogo. Você não vai fazer da melhor forma um problema que deve ser resolvido para ontem.

    O desenvolvedor precisa de tempo pra pensar, algumas empresas acham que fazer sites é como fazer pizza: ” Sai uma de calabresa aew!! 15minutos !!”

    Trabalho com interface e percebi que há uma máxima no mercado que diz por meios implícitos que Xhtml, css e Javascript é coisa simples e qualquer um hoje em dia sabe.

    Queria saber de vocês que são mais esperiêntes, se isso acontece só no Brasil. Porque se for, estou sériamente inclinado a rapidamente sair daqui.

    Estou aprendendo ainda sobre engenharia de software, engatinhando, acho muito interessante e útil, gosto de saber um pouco de tudo, o motivo pelo qual escolhi Ciência da Computação, mas gerente ? Não se não…

    Esse blog é demais… Abraço milfont !

  8. Pingback: PMBOK de Jeans - CMilfont Tech

  9. Rodrigo Felix

    Concordo com o fato de que um gerente de projetos não é um passo acima na carreira de um programador. As duas profissões são totalmente diferentes, mas acho que o conhecimento técnico é um diferencial e é muito importante. Um gerente de projetos que, anteriormente era programador e resolveu mudar de profissão por ter aptidões como bom relacionamento interpessoal, boa comunicação, capacidade de lideranças, and so on, sabe o que se passa na cabeça de um programador por que ele já foi um. Conhecer a equipe e saber se por no papel de um membro da equipe é extremente importante para que se possa tomar atitudes dentro dos limites de cada um. Não estou dizendo que um gerente tem que sair tirando certificações de programação e começar a programar. Quando o gerente começa a programar ai sim tem coisa errada e muito errada. No entanto, acredito que um conhecimento geral do que está sendo utilizado, em termos de tecnologias (porque foi usado isso e não aquilo, no que esse framework é melhor, …) faz com que o gerente saiba gerenciar melhor e o projeto tenha mais chance de ser bem sucedido. Legal a discussão. Até mais.

  10. Pingback: Handerson Frota – WEB2.0 » Por que os gerentes teimam em se meterem no desenvolvimento ?

  11. Rodrigo Galba

    O tempo passa e as empresas não mudam.
    O seu post continua retratando a realidade.
    Mas agora, essa realidade é mais ‘ágil’.
    Explico.

    Gerente de projeto (GP) comanda a equipe (time) sobre os caminhos que essa deve seguir, resolve os problemas durante esses caminhos (Pelo menos era para ser assim como vc escreveu no post).

    As empresas também todos os anos tem que se ‘reciclar’, tem que demostrar que estão se modernizando. Essas trabalham (ou querem) com times ágeis.

    Para formar um time ágil, voce precisa de: o próprio time tecnico, um cliente e um scrum master.
    Bem, pelo menos é dessa forma que as empresas estão vendendo o ágil, e isso é errado.

    Continuando,

    o papel do SCM é resolver os problemas do projeto, ops, do time.
    Resumindo, se um GP não virou SCM ainda, vai virar.

    E onde entra a parte técnica?
    Aí é que piora a situação.
    O GP que era um analista mais experiente e foi promovido, torna-se SCM e continua fazendo parte da equipe de desenvolvimento.

    Mas aí, lembramos que o próprio SCM nem sempre tem total autoridade para resolver os problemas, pois ele era apenas um cara tecnicamente experiente que ‘evoluiu’. Aí vem o diretor/chefe/boss para resolver.

    Agora sim, o cenário está formado, de chegar ao ponto do diretor de projeto de software dar pitaco (sem agregar valor nenhum) na parte técnica.

    E a pobre da equipe de desenvolvimento, tem agora que dar satisfação tanto para SCM como para o chefe dele.

    GP, SCM ou qualquer outro cargo que não seja técnico, realmente não deve intervir em assunto técnico, ainda mais quando não conhecer a tecnologia.

    E quando o projeto atrasa, eles não fazem parte da equipe técnica.
    Vai entender.

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